Assistente Social lança livro sobre histórias de vida de professores migrantes

por: Vanessa Scaquete Cáceres
22 Dezembro 2017

Assistente Social lança livro sobre histórias de vida de professores migrantes Capa do livro

Foi a partir do mestrado em Educação que Elisa Cleia Nobre, assistente social que atua hoje como Secretária de Estado da Secretaria de Direitos Humanos, Assistência Social e Trabalho- Sedhast, deu os primeiros passos na elaboração de seu livro “Trajetória de Vida de Professores Imigrantes- caminhos e descaminhos”.

A obra conta as vivências de profissionais da educação que, por algum motivo, saíram de suas cidades no território brasileiro e migraram para o estado de MS. O CRESS 21ª Região entrevistou a autora para dar mais detalhes sobre seu livro, como foi a abordagem do tema e qual a relevância dele para a sociedade e para os assistentes sociais.

 

CRESS/MS- De onde surgiu a ideia de escrever o livro?

Elisa Cleia- Escrever um livro sempre foi um daqueles projetos que parecem que não vão sair da gaveta, mas que um belo dia aparece a oportunidade e pronto, floresce.

O ingresso no mestrado em Educação na UFMS me permitiu realizar a pesquisa que deu origem ao livro “Trajetórias de vida de professores migrantes: caminhos e descaminhos”.  Aliás, a formação no mestrado me abriu novas oportunidades e ampliou meus projetos de uma forma que eu não imaginava que poderia acontecer, pois minha formação em Serviço Social já havia me estabelecido em um lugar, vamos dizer assim, seguro como profissional e o mestrado em Educação me obrigou a ver e viver novas práticas, conteúdos e habilidades que eu desconhecia. Tanto, que a pesquisa se dá com professores, profissionais estes que são a base da formação de um povo e, além disso, migrantes que permeiam toda a nossa história de formação como estado.

Bom, mas o lançamento do livro se concretizou por meio de um convite que recebi da Editora Appris, que analisou alguns artigos que eu havia escrito e se interessou pelo tema da minha dissertação e daí este sonho que estava engavetado ganhou forma. E ganhou forma de um jeito muito gratificante, pois todas as pessoas que estiveram ao meu lado para a produção do livro são pessoas especiais e que contribuíram para que a leitura do livro seja agradável a qualquer pessoa.

 

(foto: arquivo pessoal)

 

CRESS/MS- Como é desenvolvida a narrativa? De que forma você definiu os conteúdos e distribuiu os tópicos?

Elisa Cleia- O primeiro capítulo aborda o processo de construção identitária de professores: caminhos e descaminhos da migração. O primeiro tópico desse capítulo dedica-se a discorrer sobre o processo de constituição da identidade do professor, apresentando a identidade como uma dialética¹ que permite desvelar seu caráter metamorfoseado, o qual ocorre a partir de práticas sociais específicas e cria motivos e vontades em um ativo processo para se referir aos aspectos de um mundo partilhado intersubjetivamente.

No segundo tópico, apresentam-se aspectos relacionados com a prática educativa dos professores migrantes que atuam em Mato Grosso do Sul, na busca de desvelar as características culturais que os acompanham até a nova sociedade de pertencimento.

No terceiro e último tópico deste capítulo, apresenta-se a importância do processo de apreensão das memórias² na construção das narrativas dos professores, sujeitos da pesquisa, e explicita-se que é no movimento da memória que se desvelam as histórias de vida.

O segundo capítulo trata da trajetória profissional de professores migrantes e a marca impressa por essa trajetória no contexto cultural de Mato Grosso do Sul. Destaca-se em seu primeiro tópico o perfil dos professores migrantes que fizeram parte da pesquisa, abordando o seu percurso biográfico e considerando a sua socialização familiar e escolar, além de apresentar os aspectos que motivaram sua escolha profissional, buscando conhecer os aspectos positivos ou dificultadores que envolvem a constituição da trajetória profissional dos docentes pesquisados.

O segundo tópico dá visibilidade às experiências e ao cotidiano profissional do professor migrante, buscando compreender como os elementos culturais de Mato Grosso do Sul influenciam a sua atividade profissional, especificando a constituição do professor no contexto de pluralidade cultural que envolve o estado.

No terceiro tópico, busca-se conhecer, nas vivências das práticas docentes, as subjetividades que cercam os professores migrantes. Leva-se em consideração a diversidade cultural contida no lócus de pesquisa, diversidade esta da qual os próprios professores entrevistados são os atores principais, mas, ao mesmo tempo em que deixam suas marcas, são marcados em suas vidas pessoais e profissionais.

À guisa de considerações finais nesse capítulo, apresento o professor migrante nas suas interações individuais e coletivas, revelando como ele constrói a ponte entre a sua história e a história do grupo a que  pertence atualmente.

 

CRESS/MS- Qual a importância da abordagem deste tema na sociedade?

Elisa Cleia- O fenômeno da migração é alvo de pesquisas nos países europeus e nos países da América do Norte, constituindo-se como uma questão social desafiadora por suas consequências individuais e coletivas. No Brasil, essa questão ainda passa despercebida, apesar de apresentar características próprias, pois é notadamente um fenômeno interno, mas que tem sido gradualmente acrescido pela presença de migrantes dos países sul-americanos com os quais o Brasil tem uma fronteira de aproximadamente 16 mil quilômetros de extensão.

A migração, na maioria dos casos, não acontece por acaso, mas sim, porque as condições de existência biopsicossocial no local de origem se esgotaram. Assim, nota-se que ninguém se torna um migrante apenas movido pela emoção, mas sim pela forte necessidade de sobrevivência, pela forte necessidade de recomeçar, pela esperança de dias melhores e condições melhores para si e para os seus. Apesar de os estudos voltados para a pessoa do professor, sua profissionalização, a constituição da sua identidade e a sua formação apresentarem crescente interesse para os pesquisadores, por meio da abordagem das histórias de vida e seus usos no Brasil na área da Educação, apurei que a relação entre a problemática da migração e o percurso biográfico de professores é um campo que demanda investigações.

Desse modo, entendo que a importância da abordagem deste tema tem extrema pertinência na sociedade, uma vez que a história de vida de cada professor pesquisado traz um embasamento para compreendermos a contribuição destes para a formação de nossa própria identidade.

Segundo a profa. Dra. Jacira Helena do Valle Pereira que escreveu o prefácio do livro a relevância científica e social dos resultados desta pesquisa, atestam que os estudos sobre memória e uso de narrativas são um campo fecundo para se aprender as subjetividades dos agentes. Do ponto de vista social, as práticas docentes de professores migrantes são reveladoras de conflitos presentes no estado de Mato Grosso do Sul: quem somos? O que nos diferencia dos outros estados? Questões que, ao serem refletidas e conhecidas por aqueles que atuam na educação básica, tendem a fomentar nos estudantes os pertencimentos ao lugar. Quem sabe onde está e se reconhece como parte de um todo, pode efetivamente contribuir para sua construção, porque de alguma forma “veste a camisa”, não é indiferente ao que acontece ao seu redor”.

Em síntese, creio que como profissionais não podemos ficar de fora de um tema, ou melhor, de um processo que está posto em nossa sociedade e que sem dúvida nenhuma vai impactar a todos nós como pessoas pertencentes de um estado que ainda se denomina em formação.

Meu desejo é que o conteúdo apresentado no livro, assim como nossa prática profissional, nas mais diversas áreas seja capaz de introduzir em cada um não só o desejo de “ser profissional”, mas ser um profissional apaixonado e comprometido a ponto de despertar no emocional de cada um o interesse profundo do que nos afeta como cidadão.

 

CRESS/MS- Em sua opinião, qual olhar o assistente social deve ter sobre a temática?

Elisa Cleia- Nós sabemos que o universo de trabalho do assistente social é muito amplo. Na verdade, ele se molda ao movimento da sociedade que de tempos em tempos traz novos desafios à profissão. O tema migração é algo relativamente novo para o Brasil, mas um movimento que vem despertando vários sentimentos e preocupações e para o assistente social vem trazendo novos desafios. Entendo que o nosso olhar como profissional deve se voltar em primeiro lugar para conhecer o movimento de migração no Brasil e no mundo, para entender o que ele traz de consequências para a nossa sociedade. Em seguida, e mais difícil, é inserir este público nas políticas públicas, que infelizmente hoje não alcançam nem a nossa população da forma de que deveria. No entanto, e mais importante, creio que nosso olhar deve ser de respeito, comprometimento e contribuição para que estas pessoas que escolhem principalmente o Mato Grosso do Sul para estabelecerem sua moradia. Digo principalmente o Mato Grosso do Sul, pela nossa história de formação e construção de identidade, pois é notória a contribuição dos migrantes em todo este processo. Isto está estampado em nossa cultura, culinária, costumes, linguagem, enfim, em tudo que somos e temos como Estado.

 

CRESS/MS- Qual mensagem você espera que seu livro traga?

Elisa Cleia- Espero que o livro permita que o leitor conheça por meio dos percursos biográficos apresentados, como se processa a construção da identidade dos professores que, em algum momento de suas vidas, deslocaram-se de outros estados da federação brasileira para hoje residirem no contexto pluricultural do estado de Mato Grosso do Sul, a fim de identificar as marcas que essa pluralidade insere na sua trajetória. Para melhor apreender as experiências dos professores entrevistados, escolhi a metodologia de história de vida, pois como vários outros autores entendi que esse método ultrapassou os limites que o restringia ao simples conhecimento de fatos que cercam a vida de um indivíduo, sendo hoje considerado como um processo de pesquisa e formação. Outra mensagem importante que destaco no livro é a ligação entre a memória e o processo de constituição identitária, sendo esse elemento essencial para o processo de identificação pessoal e profissional do sujeito professor. Para mim, perscrutar as trajetórias profissionais e a constituição identitária de professores que tiveram suas vidas alteradas pelo deslocamento de sua terra de origem significa esmiuçar a constituição histórica e social dos que vêm sendo professores ao longo da formação do estado de Mato Grosso do Sul. Em síntese, espero que todos que fizerem a leitura deste trabalho tenham a compreensão de que os resgates da memória refletem as nuanças de maneira intensa sobre as trajetórias de todos nós e não só no caso dos professores sujeitos de estudo do livro, mas de todos que, como personagens de uma história viva, transformam-se, trocam de papéis, mudam a roupagem, constroem e marcam o seu tempo com suas vivências.

A partir de janeiro, o livro estará nas livrarias de Campo Grande. Quem quiser adquiri-lo antes, basta ligar no telefone 9 8405-8482 (Leila).

 

¹CIAMPA, A. C. A estória do Severino e a história da Severina: um ensaio de psicologia social. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

²DEMARTINI, Z. B. F. Histórias de vida na abordagem de problemas educacionais. In: SIMSON, O. de Von. (Org.). Experimentos com história de vida. (Itália-Brasil). São Paulo: Vértice, 1988. p. 44-105.
 
 
Assessoria de Comunicação- CRESS/MS
Vanessa Scaquete- Jornalista
DRT 1179/MS